O Brasil é um país maravilhoso! Com seu território continental,
embeleza as Américas com suas riquezas naturais tão bem preservadas – Seus
rios, seus mares, suas matas, seu solo – O nosso país é o verdadeiro florão da
América.
Entretanto, orgulho-me em afirmar que a maior riqueza da nossa nação é
o seu povo. Que povo espetacular! Sem sombra de dúvidas, temos nos
representantes eleitos democraticamente ou não, independentemente de bandeira
partidária, os melhores exemplos de lisura e hombridade. Extasio-me com as
notícias de como o dinheiro público tem sido tão bem utilizado para fomentar a
economia, investindo-o em empresas privadas, multiplicando o seu capital. Como
estão sendo exaustivamente planejadas reformas para garantir os direitos do
cidadão de baixa renda, do trabalhador assalariado, do idoso, o qual trabalhou
uma vida inteira, podendo, ao fim da sua jornada vital, descansar e desfrutar
do convívio com a sua família. Fico perplexo, sem fala, ao ver a priorização
que se é dada à educação, à segurança, à mobilidade urbana. Realmente não temos
do que nos queixar.
Falando em mobilidade, gostaria de compartilhar com o leitor algo que
me ocorreu na semana passada. Para ser mais exato na sexta-feira. Embora
estivesse muito cansado, posto que naquela sexta estivesse chovendo à
diluviana, conquanto detestasse o cardápio oferecido, decidi, sob uma leve
pressão uxória, participar de um jantar na casa dos parentes de minha esposa.
Ao retornar do maravilhoso encontro, juntamente com minha amada, com a querida
mãe da minha amada e a excepcional mãe da mãe da minha amada, passamos por uma
daquelas piscinas naturais que são formadas em Porto Alegre estrategicamente
nos dias de chuva para fomentar o setor de manutenção de automóveis. Cabe
salientar que essa ideia brilhante não é executada apenas pelos órgãos
celestiais e municipais, os moradores também contribuem muito para o sucesso no
represamento da água pluvial por meio de detritos jogados na rede de
saneamento. Alegremente, contribuí com o sistema, naquela noite que já estava
fantástica, permitindo, inconscientemente, que a placa dianteira do meu carro
se desprendesse numa dessas piscinas.
Somente no domingo à tarde, constatei a falta da placa do carro. Na
segunda, registrei um boletim de ocorrência e dirigi-me ao órgão responsável
para autorização de um novo emplacamento. O local era uma demonstração clara de
como vivemos em um país altamente desenvolvido e prático! Peguei uma fichinha
de papel e aguardei ser chamado. Como de costume, existiam diversos servidores
atendendo o público; havendo, por isso, somente umas vinte pessoas para serem
atendidas antes de mim. Quando finalmente chegou a minha vez, fui atendido por
uma senhora muito gentil e que demonstrava em seu olhar como prezava o serviço
que estava prestando. Ela me atendeu com a alegria eufórica peculiar a um
cágado ao enxergar o seu dono. Com a plena certeza de que estava fazendo para
mim o maior favor que eu poderia receber na vida, solicitou-me o papel da
senha, meus documentos e que relatasse o ocorrido. Após interromper-me na
metade da explicação, talvez pela sua ânsia em ajudar outras pessoas, ela cobrou
nove reais e oitenta centavos para fornecer-me o papel com a autorização.
Paguei e saí contente com a certeza de que vivo no melhor país do mundo!
Dirigindo-me ao estabelecimento que fica ao lado órgão autorizador, requisitei
a confecção da placa, que custou quarenta reais, e, em 5 minutos, já estava com
uma placa nova.
No dia posterior, quando retornava do serviço com mais dois colegas
sob uma chuva torrencial, deparamo-nos, como não poderia deixar de ser, com as costumazes
piscinas pluviais. Eram tantas que ficamos ilhados. Simplesmente não tínhamos
como chegar ao nosso destino. Os três caminhos pelos quais poderíamos ir
estavam cheios. Aproveito a oportunidade para parabenizar a preocupação governamental
com a mobilidade e a busca constante em estabelecer uma relação harmoniosa com
o meio ambiente e os profissionais das mecânicas.
Sem termos para onde ir, esperamos a água
baixar um pouco mais. Foi a melhor coisa que poderíamos fazer! Aproveitamos
para apreciar a lua, as estrelas, pois nesse lugar a iluminação é deixada ao
mínimo possível para que não percamos a beleza da noite, o Carpe Noctem. Além disso, iam e viam várias pessoas praticando
escambo - trocando objetos entre si nos lugares mais escuros. Certamente, uma
noite inesquecível. Após alguns minutos, quando em certo trecho a água baixou
um pouco mais, “Alea jacta est”: Engatei a primeira marcha e atravessei a piscina. Ocorre que, ao
atravessar o simulacro de Rubicão, novamente deixei para trás a placa do carro
e acho que até os dados caíram por lá também.
Em solo seco, ao perceber o ocorrido,
comecei a cantarolar algumas frases românticas e fiquei vermelho de alegria por
saber que iria contribuir mais uma vez com o sistema do meu maravilhoso país.
Acontece que, dois dias depois, ao vasculhar o Facebook, encontrei num post um
cidadão que encontrara diversas placas e exatamente a minha, a minha placa
perdida, estava estampada na imagem. Entrei em contato com o benfeitor e
marquei um local para encontrá-lo. Como um brasileiro honesto, íntegro, probo,
tal qual nossos governantes, o bom samaritano exigiu-me trinta reais para
devolver a minha placa, em virtude do trabalho e esforço empreendido em tê-la
encontrado na rua. Justo, muito justo! Daí, como um comerciante árabe,
pechinchei. Falei que gastaria quarenta reais para fazer uma nova, portanto não
valeria a pena pagar trinta para ele, implorei informando que era pobre, que
não tinha dinheiro, chorei, até que ele baixou para vinte reais. Paguei os
vinte reais e levei a placa para casa. Parafusando-a e colocando reforços, pois
pensei que já contribuí o bastante com o sistema esse ano.
Realmente o meu país e o meu povo são maravilhosos. Só contei essa
história para que o leitor perceba o ponto de desenvolvimento a que chegamos!
Isso sem falar da segurança pública. Aliás, falando de segurança, vi em algum
lugar que Portugal subiu no ranking e hoje é o terceiro país mais seguro do mundo.
Na reportagem, um morador lusitano estava falando que eles saíam às três horas
da manhã sem problemas, sem medo de serem assaltados. Falei, então, com uma
pessoa que estava ao meu lado, que era em um país assim que eu queria viver,
daí ela me perguntou o que eu queria fazer às três horas da manhã na rua.
Após ouvir isso, calei-me, percebendo que tudo
agora fazia sentido...
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