terça-feira, 13 de junho de 2017

Navegando


Sentado no sofá, o santuário máximo da ociosidade dominical, comecei a navegar pelo Facebook. Acho Interessante a expressão “navegar” quando a utilizamos nesse contexto. O pitoresco do termo é que navegar literalmente envolve percorrer com navio, pois, etimologicamente, esse verbo vem do latim “navigare” que tem como palavra primitiva “navis” que significa, adivinhem, navio! Então, pensando bem, a internet não é uma teia ou uma rede, mas um grande oceano – Um Pacífico, um Atlântico – de informações das mais variadas e os meus olhos são o “navis” que conduz meus pensamentos para os mais diversos lugares, para os mais diversos portos do conhecimento. Meditei nisso por um instante. Voltemos ao Facebook.

Imerso na rede social, comecei a ver as postagens dos meus “amigos”. Faço outra pausa no texto. Nem todos que estão na minha rede do “Face” são meus verdadeiros amigos. Embora conheça a todos pessoalmente – não abro mão disso – nem todos são verdadeiros camaradas. Alguns desses só os vi uma única vez e, certamente, ninguém com quem se conviveu tão pouco pode ser, verdadeiramente, um amigo. Digo isso porque a amizade envolve momentos juntos, envolve compartilhar pensamentos e emoções, sorrisos e lágrimas, envolve amor. Obviamente, as mídias sociais não estão interessadas nesse romantismo davídico, mesmo porque o maior interesse delas é comercial; entendo, porém, a palavra amigo como algo muito maior, uma efígie fulgurante do melhor que há na humanidade. Por isso, orgulho-me em dizer que tenho alguns amigos leais e bons dentre os meus “amigos do Face” e os procuro, fora desse mar digital, para compartilhar sentimentos. Entretanto, naquele exato momento, o narrador aqui estava deitado no sofá.

Cansado de ver “textões”, comecei a rever algumas fotos que postei ou em que fui marcado. Vejo uma foto e outra, mais uma foto, leio um comentário, outra foto. É impressionante como essas postagens são verdadeiras máquinas do tempo! Elas teletransportaram-me para um passado recente. Remasquei sensações esquecidas, relembrei amigos amados. Olhando-as, percebi também o quanto mudei. Mudanças físicas que estão estampadas em meu rosto, em minha barriga, em meus cabelos. Contudo, a maior mudança não é perceptível num simples olhar. Parando para pensar, cada momento expresso nas fotografias, juntos, tem como soma a minha personalidade atual. Embalado por conjecturas, num parto quase socrático, vejo como essas lembranças são importantes. Com quantas delas se faz uma vida? Vai saber... Mas cada pessoa que passa por nós, amiga ou não, deixa uma tatuagem no nosso subconsciente contribuindo para que o nosso amanhã seja diferente do nosso hoje. Daí a importância em escolher bem as pessoas que queremos ao nosso lado, pois quanto maior o período de convivência, maior o desenho que ela projetará no nosso ser. Lembrando-se, evidentemente, de que somos os principais responsáveis pelas nossas escolhas. Ainda deitado, continuei mais alguns minutos nessa viagem temporal.


Finalmente, acabei de ver as fotos. A bateria do smartphone estava no limite. Saí do Facebook e coloquei o aparelho ao meu lado. Estava com preguiça de levantar-me para recarregá-lo. Estiquei um pouco o braço e liguei a TV. No programa, estava passando um vídeo do Chico. Por sinal, ele cantava: “Sei que há léguas a nos separar, tanto mar, tanto mar. Sei, também, como é preciso navegar, navegar...”. Ouvindo-o, dei um leve sorriso, levantei do sofá com uma leve dor nas costas, peguei o smartphone, fui para o quarto e deitei na cama, afinal, era domingo!

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