Sentado no sofá, o santuário
máximo da ociosidade dominical, comecei a navegar pelo Facebook. Acho Interessante
a expressão “navegar” quando a utilizamos nesse contexto. O pitoresco do termo
é que navegar literalmente envolve percorrer com navio, pois, etimologicamente,
esse verbo vem do latim “navigare” que tem como palavra primitiva “navis” que
significa, adivinhem, navio! Então, pensando bem, a internet não é uma teia ou uma
rede, mas um grande oceano – Um Pacífico, um Atlântico – de informações das
mais variadas e os meus olhos são o “navis” que conduz meus pensamentos para os
mais diversos lugares, para os mais diversos portos do conhecimento. Meditei
nisso por um instante. Voltemos ao Facebook.
Imerso na rede social, comecei a
ver as postagens dos meus “amigos”. Faço outra pausa no texto. Nem todos que
estão na minha rede do “Face” são meus verdadeiros amigos. Embora conheça a
todos pessoalmente – não abro mão disso – nem todos são verdadeiros camaradas. Alguns
desses só os vi uma única vez e, certamente, ninguém com quem se conviveu tão
pouco pode ser, verdadeiramente, um amigo. Digo isso porque a amizade envolve
momentos juntos, envolve compartilhar pensamentos e emoções, sorrisos e
lágrimas, envolve amor. Obviamente, as mídias sociais não estão interessadas
nesse romantismo davídico, mesmo porque o maior interesse delas é comercial;
entendo, porém, a palavra amigo como algo muito maior, uma efígie fulgurante do
melhor que há na humanidade. Por isso, orgulho-me em dizer que tenho alguns amigos
leais e bons dentre os meus “amigos do Face” e os procuro, fora desse mar
digital, para compartilhar sentimentos. Entretanto, naquele exato momento, o
narrador aqui estava deitado no sofá.
Cansado de ver “textões”, comecei
a rever algumas fotos que postei ou em que fui marcado. Vejo uma foto e outra,
mais uma foto, leio um comentário, outra foto. É impressionante como essas
postagens são verdadeiras máquinas do tempo! Elas teletransportaram-me para um
passado recente. Remasquei sensações esquecidas, relembrei amigos amados. Olhando-as,
percebi também o quanto mudei. Mudanças físicas que estão estampadas em meu
rosto, em minha barriga, em meus cabelos. Contudo, a maior mudança não é
perceptível num simples olhar. Parando para pensar, cada momento expresso nas
fotografias, juntos, tem como soma a minha personalidade atual. Embalado por
conjecturas, num parto quase socrático, vejo como essas lembranças são
importantes. Com quantas delas se faz uma vida? Vai saber... Mas cada pessoa
que passa por nós, amiga ou não, deixa uma tatuagem no nosso subconsciente contribuindo
para que o nosso amanhã seja diferente do nosso hoje. Daí a importância em
escolher bem as pessoas que queremos ao nosso lado, pois quanto maior o período
de convivência, maior o desenho que ela projetará no nosso ser. Lembrando-se,
evidentemente, de que somos os principais responsáveis pelas nossas escolhas. Ainda
deitado, continuei mais alguns minutos nessa viagem temporal.
Finalmente, acabei de ver as
fotos. A bateria do smartphone estava no limite. Saí do Facebook e coloquei o
aparelho ao meu lado. Estava com preguiça de levantar-me para recarregá-lo.
Estiquei um pouco o braço e liguei a TV. No programa, estava passando um vídeo
do Chico. Por sinal, ele cantava: “Sei que há léguas a nos separar, tanto mar,
tanto mar. Sei, também, como é preciso navegar, navegar...”. Ouvindo-o, dei um
leve sorriso, levantei do sofá com uma leve dor nas costas, peguei o
smartphone, fui para o quarto e deitei na cama, afinal, era domingo!
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