quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Os pinóquios brasileiros


Conta a lenda que um velho carpinteiro, chamado Gepeto, queria tanto ter um filho, que decidiu fazer um boneco de madeira com a aparência de um menino, no qual deu o nome de Pinóquio. Em um belo dia, uma fada atendeu o desejo do velho carpinteiro, dando vida ao boneco de madeira. Apesar de não ser um garoto de verdade, Pinóquio logo agira como tal, se metendo em encrencas por desobedecer a seu criador e sua consciência, representada na fábula por um grilo falante. Pinóquio amava mentir. Cansada de suas mentiras e depois de livrá-lo de muitos apuros, a fada impôs uma maldição a Pinóquio: toda vez que ele falasse alguma mentira, seu nariz cresceria. Pinóquio era muito teimoso, e mesmo com o alerta da fada ele continuava mentindo, e seu nariz, continuava crescendo. De tanto mentir, o nariz de Pinóquio crescera desmesuradamente. Ninguém acreditava mais em Pinóquio. Tragicamente, quando Pinóquio resolveu falar a verdade numa situação de perigo, ninguém o acreditou. Quem se arriscaria? Mas como em todo conto de fada, Pinóquio aprendeu a lição, se tornando um menino bom e obediente, que só falava a verdade. Como recompensa, a fada transformou Pinóquio em um menino de verdade, e o velho Gepeto, Pinóquio e o Grilo Falante viveram felizes para sempre!

E hoje?

Imagine se todo mundo que mentisse sofresse o mal de Pinóquio, tendo como punição o crescimento do nariz. Sinto dizer, caro leitor. Infelizmente, teríamos uma nação de narigudos!

A mentira está em toda parte. Está no aluno que ao chegar em seu lar, diz aos pais que “hoje não teve dever de casa”, na professora que não corrigiu as provas porque “não teve tempo”, na secretária que chega atrasada todos os dias em seu trabalho e diz que foi “por causa do engarrafamento” e no patrão mesquinho, que nega aumento de salário pra sua empregada por que isso estaria “fora do orçamento”. Todos mentem, e, por conseqüência, todos teriam um nariz de Pinóquio. Mas será que a mentira é mesmo ruim? Para saber, precisamos primeiro entender o que é uma mentira.

Segundo o Dicionário Brasileiro Globo, mentira “é o ato de mentir, afirmação contrária à verdade, falsidade, persuasão falsa”. Diante de tal gentil definição, limito-me a dizer que a mentira é uma escória, a aversão da sinceridade, o chorume da desonestidade. A mentira é responsável pelos maiores “males” da sociedade. Foi por causa de uma mentira - dita pelo Diabo e engenhosamente proferida através de uma serpente - que o primeiro casal humano perdeu o privilégio de viver para sempre no Jardim do Édem. Foi por meio de mentiras absurdas que líderes religiosos judaicos prenderam, julgaram e mataram injustamente o filho de Deus. É claro que sempre irão existir aqueles defensores da mentira, dizendo que uma mentirinha aqui ou ali não faz mal a ninguém. Já outros, não somente defendem a mentira, mas também fazem dela um meio de trabalho. São viciados usuários da mentira. Estes são nossos políticos. Opa! Alto lá! É com a devida vênia que eu peço a você, caro leitor, mil desculpas pela pecha que acabo de cometer! Minha querida mãe sempre me ensinou que nunca devemos chamar uma pessoa de mentirosa, mesmo que essa pessoa seja um político, mesmo que seja um político brasileiro! Graças a Deus, a educação que meus pais me deram foi suficiente para que eu não me tornasse um boçal e por isso, devo me retratar. Nossos ilustríssimos políticos não mentem, eles apenas sofismam. Sofisma é um raciocínio falso, com certa aparência de verdadeiro. É um argumento capcioso, enganoso. Nossos honestíssimos políticos são exímios na arte de sofismar. Tomem como exemplo a reação do Excelentíssimo ex-presidente da República Federativa do Brasil, senhor Luiz Inácio Lula da Silva, ao ser indagado sobre o mensalão. Mensalão foi um escândalo de compra de votos para o favorecimento de políticos na aprovação de projetos e cargos, que teve um envolvimento efetivo  da alta cúpula do PT (Partido dos Trabalhadores), cujo principal idealizador e fundador foi o próprio Lula. Em depoimento no Palácio Central, nosso inocente e desinformado ex-presidente afirmou, repetidas vezes, em alto e bom som, que “não sabia de nada” do que estava acontecendo e, ainda, tomaria as medidas cabíveis para que, em colaboração com a justiça, os envolvidos fossem investigados e punidos. Isso é o que me deixa mais indignado! Nossos singelos e puros políticos, além de sofismadores, são extremamente soberbos, não sentem o mínimo de receio em subestimar tão corajosamente a inteligência e memória do povo brasileiro. Quero deixar claro que não sou filiado de nenhum partido político, nem tenho preferência por nenhum candidato. O exemplo do mensalão foi com objetivo estritamente crítico, nada político. Até porque, se fôssemos mencionar todas as falcatruas que permeiam o cenário da política nacional, acredito que “todos os rolos do mundo não seriam capazes de contê-las”. Enfim, se o travesso Pinóquio vivesse em nossos dias, com certeza faria de tudo para se transformar em boneco de madeira novamente. Afinal, em comparação com nossos políticos, Pinóquio seria um café pequeno.



segunda-feira, 3 de julho de 2017

Vai um cafezinho?


Poucas coisas são tão necessárias quanto uma xícara de café! O negro líquido matinal anima a alma, sendo o ponto de partida para um ótimo dia. O estresse do trabalho é amenizado por um gole quentinho desse colega silencioso. Longas noites de estudo são prolongadas por esse divino grão diluído. Deveras: Um cafezinho é bom demais! Estudos apontam para os benefícios do café para o nosso corpo, não só como estimulante, mas também como benéfico para o coração.

Existem diversas formas de tomarmos o nosso companheiro: expresso (ou “espresso”, como na Itália), cortado, breve, pingado, passado, enfim, inúmeros são os sabores e os acompanhamentos. Em alguns bares, a famosa “Média” (Um copo de café, combinado com um pouco de leite, unidos a um pão francês recheado de manteiga) é paixão nacional. Porém, a despeito das descobertas mais recentes sobre o tema e do grande número de fãs, o café não é uma unanimidade. Há quem não goste do famoso “menorzinho”, como em alguns lugares é conhecida uma pequena xícara de café. Mas, como as unanimidades não são confiáveis, é mais do que normal para uma bebida tão seleta não agradar a todos.


Por isso, fica a dica: Se você é fã de um cafezinho, aproveite essa delícia. Aliás, o papo está muito bom; encerro-o por aqui, entretanto, já que está na hora do meu cafezinho.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Escolhas


Por que a vida é tão complicada? Por que tantas escolhas? Não seria mais fácil alguém escolher por nós? Penso nessas perguntas sempre que tenho a difícil tarefa de escolher entre algo: entre o terno e a bermuda, entre o desejo e a dívida, entre o presente e o futuro, entre o sorriso e a carranca. E quantas vezes errei! Admito os erros, como o leitor há de admitir que já errara várias vezes antes de começar a ler estas palavras. Ainda digo mais, talvez ler esse texto seja seu primeiro acerto de hoje ou o primeiro erro. A resposta ficará suspensa para uma posterior reflexão.

Todavia, quando falo em escolhas, não posso me esquecer de um grande amigo meu, o Sérgio Ferreira. Você conhece o Serginho? Se não, talvez algum dos amigos do leitor o conheça. Era amigo dele desde a quinta série. Sujeito simpático, não de muitas palavras, mas com um coração bem maior que os seus 1,68m de altura. Ele era uma daquelas pessoas que todos querem ter por perto. Porém, uso a palavra era, pois o Serginho faleceu no último dia dois. Overdose.

Nos últimos meses, ele estava muito mudado e, quando o encontrei, dois dias antes do triste fato, estava emburrado, inquieto, tenso. Não sorria. Os seus olhos não brilhavam como antes. E eu sabia o porquê dessas mudanças.

Nesse dia, lembrei-me que, quase um ano antes, exatamente no dia dois, estávamos juntos: Eu, o Johny, o Vitinho e ele. Como sempre, falávamos sobre o trabalho, faculdade, garotas e outras coisas mais. Dentre essas outras coisas, o Serginho nos contou sobre uns amigos novos que ele tinha feito no condomínio em que morava. Eram filhos de um político muito conhecido na cidade. Na conversa, o Serginho havia dito que eles o tinham oferecido drogas, mas que havia rejeitado. Entretanto, evidentemente, a força de vontade dele não foi tão forte quanto a luta pra ser aceito pelos novos amigos, e, pelo visto, nossos conselhos não foram tão eficazes.

Entendo o Serginho. Ele se tratava na mesma psicóloga que eu. Era depressão - a doença das escolhas. O tratamento dele começara há três anos, no dia dois de fevereiro. Lembro-me a data, pois é a data em que fico sempre um ano mais experiente. Recordo-me dele dizendo: “renasço no dia em que você nasceu!”- Coisas da vida. Indiquei a Dra. Carla, pois ele estava tendo crises de pânico, ansiedade. Dei o diagnóstico já antes da consulta. Embora não seja médico, nesses conflitos já tenho doutorado.

Quem conhece os mistérios do coração? Será o leitor conhecedor deles? Não, ninguém os conhece. Nessa época, o pobre Serginho em seu imenso e amistoso coração guardava uma enorme dor. Essa dor começara dois meses antes, quando ele se separou da sua namorada: Eva. Eles se amavam e viviam intensamente esse amor, mas as brigas eram tão intensas tanto o quanto. Então, ele decidiu terminar. O que faz duas pessoas que se amam tanto brigarem tanto e se separarem? Essa pergunta era recorrente na vida do Serginho. Só que, nesse caso, ele não aguentava mais a situação, como, também, não conseguiu suportar sozinho a dor conseqüente da separação.

O Serginho e a Eva estavam juntos havia três anos, desde a formatura dele. Lembro-me que ele tinha uma certa dificuldade de aprendizado, mas conseguiu se formar sem perder um ano sequer. O Sérgio sempre foi guerreiro. Desde quando começamos a estudar juntos, na quinta série, nunca entendi muito bem a dificuldade que ele tinha. Era conhecedor de todos os jogos de videogame, era craque na bola, conhecia todos os programas de TV, mas tinha dificuldade nos estudos. Guardo viva em minha mente a lembrança de que, no primeiro ano do segundo grau, ele disse ter sofrido muito com a separação dos seus pais há seis anos. Aquilo me tocou fundo. Meus pais sempre viveram juntos, mesmo passando por bons ou maus momentos. Pra mim também seria uma dor muito grande a separação deles.

Mas, o fato é que o Sérgio está morto. A morte, atualmente, é uma conseqüência inevitável. Até lá, vivemos com base em nossas escolhas, e, assim como o Sérgio, estamos presos a uma sucessão de exercícios do livre arbítrio desde o primeiro dos dois momentos das nossas vidas em que não podemos exercê-lo – o nosso nascimento.


quarta-feira, 14 de junho de 2017

Mário


Todos os quatro estavam parados no corredor: Atentos, atônitos. Ora olhavam uns para os outros, ora os olhos fixos no relógio. Peça redonda, esférica, fixada há vários anos naquela mesma parede, marcando os minutos que passavam tão lentamente, minutos que pareciam conter mais de 60 segundos cada um. Nessa angústia avassaladora, o quarteto balbuciava, não em uníssono, muito menos harmonicamente, o mesmo refrão: “Logo o Mário!”

Onze horas. “Acorda Mário”! Mário acorda. Liga o som. Levanta da cama. Vai ao banheiro. Escova os dentes. Toma café. Senta-se no sofá. No smartphone toca Legião Urbana. Todo garoto de 20 anos ouve Legião e Mário é apenas mais um. Olha para fora. Percebe que, num dia nublado, nada o poderá distrair de pensar nela. E ele pensa minuto a minuto.

O relógio na parede parece dar compasso às emoções. Os médicos passam indiferentes, transformam-se em objetos de atenção. Não há sorrisos, apenas veem-se algumas lágrimas. Tensão. As mãos estão molhadas pela sudorese que as atacam. O relógio, como um grande algoz, marca as horas lentamente. Horas ou séculos?

Mário desliga a música e liga a televisão. Fazendo isso, ele tenta parar de pensar nela ou em qualquer outra coisa. Não obstante, mesmo usando essa tática quase sempre infalível, ele não consegue! Consternado, resolve agir pegando papel e caneta. Inicia com as palavras: “É difícil de dizer”; Tem interrompida, porém, a sua heroica tentativa, já que suas mãos suam e molham toda a folha pautada. Seu sentimento mais nobre estava sendo inundado pela ansiedade. Ansiedade que vem e rouba-lhe as palavras por levá-las embora como num temporal, espalhando-as com os seus sentimentos pela cidade, afastando-as das suas mãos. Das mãos de Mário, o qual desiste de escrever e volta à televisão. E de sua carta, fruto de um quase amor quase perfeito, só restaram a dificuldade e o desejo.

Já faz algum tempo e não dão notícias, nem um sinal sequer. E o tique-taque do relógio tira-lhes a paz. Mais um corpo passa - o que restou de uma vida. E todos quietos esperando. Até que um deles pausa o silêncio: “Vou ao banheiro”! E segue pelo corredor. Seus passos confundem-se com o som do relógio, trazendo um momento de desatenção das horas que só se arrastam – somente.

Tédio. O nosso jovem amigo desliga a televisão. Senta-se à mesa, começa a almoçar. Mário não conversa no horário de almoço, por isso continua calado. Na realidade, Mário quase nunca proseia, quase nunca se expressa, quase nunca se diverte, quase nunca brinca, quase nunca sonha, quase nunca ama. Porém, observe o leitor que o quase interfere na totalidade do nunca, por isso o Mário vez por outra conversa, vez por outra brinca e, só uma vez, amou. Só uma vez.

Voltando do banheiro o curioso pergunta por novidades. Calados estavam, calados ficaram. Apenas um balançou a cabeça negativamente. A taciturnidade inaudível retorna e as horas continuam a passar lentamente.

Após o almoço, a mãe de Mário, como de costume, engole o silêncio e vai trabalhar. Já ele, durante a refeição, pensa no que fazer e começa a refletir: “Por que será que nós não amamos as pessoas que nos amam? Por que será que o amor tem que doer tanto?” Posto que ninguém perceba, o pobre garoto está visivelmente cansado de sofrer.

Tique-taque, tique-taque, tique-taque.

-          Alguma novidade doutor?

Tique-taque, tique-taque, tique-taque.

-          Foi um grande susto.

Tique-taque, tique-taque, tique-taque.

-          Mas ele corre risco de vida?

Tique-taque, tique-taque, tique-taque.

-          O pior já passou. Em breve receberá alta. Dentro de mais alguns instantes, trarei novas informações. Até mais.

-          Até mais.

Embora relute, Mário continua a pensar. Nos seus pensamentos a vida é a certeza mais incerta, a dor mais angustiante. Para ele não faz sentido existir somente pela força da expressão - Ou se é ou não se é! Ele começa a raciocinar que quando a alegria pula no precipício infinito do sofrer, torna-se uma simples ilusão a existência ambiciosa do homem. Resumem-se em lágrimas toda a sua história, toda a sua luta, todos os seus sentimentos, os quais, agora, são fúteis. Após a reflexão, o nosso protagonista vai para o seu quarto.

O barulho do relógio mais uma vez é interrompido. Chega uma ambulância trazendo mais um enfermo. Correria: Vão os médicos e enfermeiros voltam os médicos e os enfermeiros vão os médicos e enfermeiros. Voltam os médicos e os enfermeiros e dessa vez com uma maca onde está um jovem com parada cardíaca. “1,2,3 vai! 1,2,3 vai! 1,2,3 vai! 1,2,3 vai!” Dois dos que aguardam no corredor observam assustados, acompanhando na mente a contagem repetitiva e salvadora. Os outros dois baixam a cabeça e procuram desviar sua atenção olhando para o relógio, o qual não para.

Mário senta na cama e olha para os benzodiazepínicos. Angústia. Ele engole a primeira pílula. Dentro de 10 minutos ele começa a sentir o corpo mole e uma grande sonolência. Falta-lhe coragem para tomar as outras. Todavia, pensando bem, seria coragem ou covardia tomar as outras? Nem o Mário sabe. Ele só sabe que dói muito dentro do peito. Por isso tomou a segunda. Agora decidido, toma a terceira, e a quarta, e a quinta, e a sexta, a sétima, a oitava, nona, décima…

-          É o Mário!

Pelo corredor, lá vem o Mário apoiado nas muletas e esbanjando um sorriso vencedor ao sobreviver a um acidente de carro. Os seus três amigos o abraçam com cuidado. Sua esposa beija-lhe o rosto como o de um herói.  Os rostos tensos dão lugar à alegria do reencontro. Um abraço no médico, nos enfermeiros, na atendente. E depois todos seguem para as suas casas contentes e alegres. Alegres porque o Mário novamente escapou da morte. Morte, desta vez, desintencional.


O relógio continua no mesmo lugar, na mesma parede. Mas ele não tem mais importância. O tempo agora é amigo, pois só ele apaga todas as mágoas, todos os amores não amados, todos os desentendimentos, todas as brigas e, principalmente, todos os erros. E Mário aprendeu esta grande lição: O tempo muda aqueles que amadurecem por ele. 

terça-feira, 13 de junho de 2017

O combustível da vida


Estava comprando pão quando comecei a prestar atenção na conversa entre duas senhoras ao meu lado:

- Guria, já estamos em dezembro!
- É, minha filha, esse ano passou voando...

Ao ouvir aquela conversa, parei para pensar em quantas vezes já ouvira frases semelhantes. Confesso que até eu já falei algo parecido. Porém, por um instante, meditei em como a conversa entre aquelas duas senhoras escondia uma verdade fundamental: O tempo passa!

Talvez você pense que “é óbvio que o tempo passa”. Concordo, isso é óbvio, assim como todas as verdades. Em geral, as mentiras são mais elaboradas, mais complexas. Já as verdades são mais simples, mais descomplicadas, mais óbvias. E é essa obviedade, a fluidez temporal, que torna cada instante único. Por exemplo, o interstício entre o momento em que você decidiu ler as primeiras frases desse texto e o “jamais” que você está prestes a ler jamais voltará. Esse fato acarreta uma grande responsabilidade, já que o tempo é irrecuperável.

Ao deter-me nesse pensamento, olhei novamente para aquelas duas senhoras e comecei a imaginar em como elas aproveitaram esse bem tão precioso no decorrer das suas décadas. Será que elas foram felizes? Trabalharam em coisas que gostavam ou passaram a sua vida fazendo algo do qual não tinham vocação? Amaram e foram amadas? Nunca saberei.

Ainda com a mente fixa nessa reflexão, paguei o pão, recebi o troco, agradeci à caixa com um sorriso e voltei caminhando para casa. No caminho, chutei uma pedra e decidi que não posso perder tempo: O tempo passa.

 Muitas pessoas esperam acabar o ano para fazerem mudanças, como se existisse um toque mágico entre o dia trinta e um de dezembro e o dia primeiro de janeiro. Mas não há. Há tanta mágica entre esses dois dias, como há entre primeiro e dois de janeiro. Ano que vem os dias terão as mesmas vinte e quatro horas. Na realidade, a grande diferença entre um dia e o outro ou entre um ano e o outro é a nossa atitude. Sendo assim, a mudança não está no tempo, mas em nós. E, para mudarmos, não precisamos de data específica. Hoje mesmo podemos parar de fumar, hoje mesmo podemos começar a dieta, hoje mesmo podemos fazer o nosso melhor, hoje mesmo podemos dizer eu te amo. O hoje é mais importante que qualquer ano novo, pois sem as mudanças feitas hoje, nada será novo.


Então, comece hoje mesmo a pensar em como está a sua vida e aonde você quer chegar amanhã. Aproveite cada hora, cada minuto, cada segundo, cada milésimo do seu tempo, pois ele passa. Procure estar bem espiritualmente, pessoalmente, familiarmente e profissionalmente. Use seu tempo com quem você gosta, fazendo o que você gosta, pois, dessa forma, você sempre extrairá o seu melhor.  Aliás, falando nisso, certa vez uma amiga me disse que fazer o que se gosta é o combustível da vida.

Navegando


Sentado no sofá, o santuário máximo da ociosidade dominical, comecei a navegar pelo Facebook. Acho Interessante a expressão “navegar” quando a utilizamos nesse contexto. O pitoresco do termo é que navegar literalmente envolve percorrer com navio, pois, etimologicamente, esse verbo vem do latim “navigare” que tem como palavra primitiva “navis” que significa, adivinhem, navio! Então, pensando bem, a internet não é uma teia ou uma rede, mas um grande oceano – Um Pacífico, um Atlântico – de informações das mais variadas e os meus olhos são o “navis” que conduz meus pensamentos para os mais diversos lugares, para os mais diversos portos do conhecimento. Meditei nisso por um instante. Voltemos ao Facebook.

Imerso na rede social, comecei a ver as postagens dos meus “amigos”. Faço outra pausa no texto. Nem todos que estão na minha rede do “Face” são meus verdadeiros amigos. Embora conheça a todos pessoalmente – não abro mão disso – nem todos são verdadeiros camaradas. Alguns desses só os vi uma única vez e, certamente, ninguém com quem se conviveu tão pouco pode ser, verdadeiramente, um amigo. Digo isso porque a amizade envolve momentos juntos, envolve compartilhar pensamentos e emoções, sorrisos e lágrimas, envolve amor. Obviamente, as mídias sociais não estão interessadas nesse romantismo davídico, mesmo porque o maior interesse delas é comercial; entendo, porém, a palavra amigo como algo muito maior, uma efígie fulgurante do melhor que há na humanidade. Por isso, orgulho-me em dizer que tenho alguns amigos leais e bons dentre os meus “amigos do Face” e os procuro, fora desse mar digital, para compartilhar sentimentos. Entretanto, naquele exato momento, o narrador aqui estava deitado no sofá.

Cansado de ver “textões”, comecei a rever algumas fotos que postei ou em que fui marcado. Vejo uma foto e outra, mais uma foto, leio um comentário, outra foto. É impressionante como essas postagens são verdadeiras máquinas do tempo! Elas teletransportaram-me para um passado recente. Remasquei sensações esquecidas, relembrei amigos amados. Olhando-as, percebi também o quanto mudei. Mudanças físicas que estão estampadas em meu rosto, em minha barriga, em meus cabelos. Contudo, a maior mudança não é perceptível num simples olhar. Parando para pensar, cada momento expresso nas fotografias, juntos, tem como soma a minha personalidade atual. Embalado por conjecturas, num parto quase socrático, vejo como essas lembranças são importantes. Com quantas delas se faz uma vida? Vai saber... Mas cada pessoa que passa por nós, amiga ou não, deixa uma tatuagem no nosso subconsciente contribuindo para que o nosso amanhã seja diferente do nosso hoje. Daí a importância em escolher bem as pessoas que queremos ao nosso lado, pois quanto maior o período de convivência, maior o desenho que ela projetará no nosso ser. Lembrando-se, evidentemente, de que somos os principais responsáveis pelas nossas escolhas. Ainda deitado, continuei mais alguns minutos nessa viagem temporal.


Finalmente, acabei de ver as fotos. A bateria do smartphone estava no limite. Saí do Facebook e coloquei o aparelho ao meu lado. Estava com preguiça de levantar-me para recarregá-lo. Estiquei um pouco o braço e liguei a TV. No programa, estava passando um vídeo do Chico. Por sinal, ele cantava: “Sei que há léguas a nos separar, tanto mar, tanto mar. Sei, também, como é preciso navegar, navegar...”. Ouvindo-o, dei um leve sorriso, levantei do sofá com uma leve dor nas costas, peguei o smartphone, fui para o quarto e deitei na cama, afinal, era domingo!

Brasileirismos


O Brasil é um país maravilhoso! Com seu território continental, embeleza as Américas com suas riquezas naturais tão bem preservadas – Seus rios, seus mares, suas matas, seu solo – O nosso país é o verdadeiro florão da América. 

Entretanto, orgulho-me em afirmar que a maior riqueza da nossa nação é o seu povo. Que povo espetacular! Sem sombra de dúvidas, temos nos representantes eleitos democraticamente ou não, independentemente de bandeira partidária, os melhores exemplos de lisura e hombridade. Extasio-me com as notícias de como o dinheiro público tem sido tão bem utilizado para fomentar a economia, investindo-o em empresas privadas, multiplicando o seu capital. Como estão sendo exaustivamente planejadas reformas para garantir os direitos do cidadão de baixa renda, do trabalhador assalariado, do idoso, o qual trabalhou uma vida inteira, podendo, ao fim da sua jornada vital, descansar e desfrutar do convívio com a sua família. Fico perplexo, sem fala, ao ver a priorização que se é dada à educação, à segurança, à mobilidade urbana. Realmente não temos do que nos queixar.

Falando em mobilidade, gostaria de compartilhar com o leitor algo que me ocorreu na semana passada. Para ser mais exato na sexta-feira. Embora estivesse muito cansado, posto que naquela sexta estivesse chovendo à diluviana, conquanto detestasse o cardápio oferecido, decidi, sob uma leve pressão uxória, participar de um jantar na casa dos parentes de minha esposa. Ao retornar do maravilhoso encontro, juntamente com minha amada, com a querida mãe da minha amada e a excepcional mãe da mãe da minha amada, passamos por uma daquelas piscinas naturais que são formadas em Porto Alegre estrategicamente nos dias de chuva para fomentar o setor de manutenção de automóveis. Cabe salientar que essa ideia brilhante não é executada apenas pelos órgãos celestiais e municipais, os moradores também contribuem muito para o sucesso no represamento da água pluvial por meio de detritos jogados na rede de saneamento. Alegremente, contribuí com o sistema, naquela noite que já estava fantástica, permitindo, inconscientemente, que a placa dianteira do meu carro se desprendesse numa dessas piscinas.

Somente no domingo à tarde, constatei a falta da placa do carro. Na segunda, registrei um boletim de ocorrência e dirigi-me ao órgão responsável para autorização de um novo emplacamento. O local era uma demonstração clara de como vivemos em um país altamente desenvolvido e prático! Peguei uma fichinha de papel e aguardei ser chamado. Como de costume, existiam diversos servidores atendendo o público; havendo, por isso, somente umas vinte pessoas para serem atendidas antes de mim. Quando finalmente chegou a minha vez, fui atendido por uma senhora muito gentil e que demonstrava em seu olhar como prezava o serviço que estava prestando. Ela me atendeu com a alegria eufórica peculiar a um cágado ao enxergar o seu dono. Com a plena certeza de que estava fazendo para mim o maior favor que eu poderia receber na vida, solicitou-me o papel da senha, meus documentos e que relatasse o ocorrido. Após interromper-me na metade da explicação, talvez pela sua ânsia em ajudar outras pessoas, ela cobrou nove reais e oitenta centavos para fornecer-me o papel com a autorização. Paguei e saí contente com a certeza de que vivo no melhor país do mundo! Dirigindo-me ao estabelecimento que fica ao lado órgão autorizador, requisitei a confecção da placa, que custou quarenta reais, e, em 5 minutos, já estava com uma placa nova.

No dia posterior, quando retornava do serviço com mais dois colegas sob uma chuva torrencial, deparamo-nos, como não poderia deixar de ser, com as costumazes piscinas pluviais. Eram tantas que ficamos ilhados. Simplesmente não tínhamos como chegar ao nosso destino. Os três caminhos pelos quais poderíamos ir estavam cheios. Aproveito a oportunidade para parabenizar a preocupação governamental com a mobilidade e a busca constante em estabelecer uma relação harmoniosa com o meio ambiente e os profissionais das mecânicas.

Sem termos para onde ir, esperamos a água baixar um pouco mais. Foi a melhor coisa que poderíamos fazer! Aproveitamos para apreciar a lua, as estrelas, pois nesse lugar a iluminação é deixada ao mínimo possível para que não percamos a beleza da noite, o Carpe Noctem. Além disso, iam e viam várias pessoas praticando escambo - trocando objetos entre si nos lugares mais escuros. Certamente, uma noite inesquecível. Após alguns minutos, quando em certo trecho a água baixou um pouco mais, “Alea jacta est”: Engatei a primeira marcha e atravessei a piscina. Ocorre que, ao atravessar o simulacro de Rubicão, novamente deixei para trás a placa do carro e acho que até os dados caíram por lá também.

Em solo seco, ao perceber o ocorrido, comecei a cantarolar algumas frases românticas e fiquei vermelho de alegria por saber que iria contribuir mais uma vez com o sistema do meu maravilhoso país. Acontece que, dois dias depois, ao vasculhar o Facebook, encontrei num post um cidadão que encontrara diversas placas e exatamente a minha, a minha placa perdida, estava estampada na imagem. Entrei em contato com o benfeitor e marquei um local para encontrá-lo. Como um brasileiro honesto, íntegro, probo, tal qual nossos governantes, o bom samaritano exigiu-me trinta reais para devolver a minha placa, em virtude do trabalho e esforço empreendido em tê-la encontrado na rua. Justo, muito justo! Daí, como um comerciante árabe, pechinchei. Falei que gastaria quarenta reais para fazer uma nova, portanto não valeria a pena pagar trinta para ele, implorei informando que era pobre, que não tinha dinheiro, chorei, até que ele baixou para vinte reais. Paguei os vinte reais e levei a placa para casa. Parafusando-a e colocando reforços, pois pensei que já contribuí o bastante com o sistema esse ano.

Realmente o meu país e o meu povo são maravilhosos. Só contei essa história para que o leitor perceba o ponto de desenvolvimento a que chegamos! Isso sem falar da segurança pública. Aliás, falando de segurança, vi em algum lugar que Portugal subiu no ranking e hoje é o terceiro país mais seguro do mundo. Na reportagem, um morador lusitano estava falando que eles saíam às três horas da manhã sem problemas, sem medo de serem assaltados. Falei, então, com uma pessoa que estava ao meu lado, que era em um país assim que eu queria viver, daí ela me perguntou o que eu queria fazer às três horas da manhã na rua.

Após ouvir isso, calei-me, percebendo que tudo agora fazia sentido... 

Os pinóquios brasileiros

Conta a lenda que um velho carpinteiro, chamado Gepeto, queria tanto ter um filho, que decidiu fazer um boneco de madeira com a aparência d...