terça-feira, 20 de junho de 2017

Escolhas


Por que a vida é tão complicada? Por que tantas escolhas? Não seria mais fácil alguém escolher por nós? Penso nessas perguntas sempre que tenho a difícil tarefa de escolher entre algo: entre o terno e a bermuda, entre o desejo e a dívida, entre o presente e o futuro, entre o sorriso e a carranca. E quantas vezes errei! Admito os erros, como o leitor há de admitir que já errara várias vezes antes de começar a ler estas palavras. Ainda digo mais, talvez ler esse texto seja seu primeiro acerto de hoje ou o primeiro erro. A resposta ficará suspensa para uma posterior reflexão.

Todavia, quando falo em escolhas, não posso me esquecer de um grande amigo meu, o Sérgio Ferreira. Você conhece o Serginho? Se não, talvez algum dos amigos do leitor o conheça. Era amigo dele desde a quinta série. Sujeito simpático, não de muitas palavras, mas com um coração bem maior que os seus 1,68m de altura. Ele era uma daquelas pessoas que todos querem ter por perto. Porém, uso a palavra era, pois o Serginho faleceu no último dia dois. Overdose.

Nos últimos meses, ele estava muito mudado e, quando o encontrei, dois dias antes do triste fato, estava emburrado, inquieto, tenso. Não sorria. Os seus olhos não brilhavam como antes. E eu sabia o porquê dessas mudanças.

Nesse dia, lembrei-me que, quase um ano antes, exatamente no dia dois, estávamos juntos: Eu, o Johny, o Vitinho e ele. Como sempre, falávamos sobre o trabalho, faculdade, garotas e outras coisas mais. Dentre essas outras coisas, o Serginho nos contou sobre uns amigos novos que ele tinha feito no condomínio em que morava. Eram filhos de um político muito conhecido na cidade. Na conversa, o Serginho havia dito que eles o tinham oferecido drogas, mas que havia rejeitado. Entretanto, evidentemente, a força de vontade dele não foi tão forte quanto a luta pra ser aceito pelos novos amigos, e, pelo visto, nossos conselhos não foram tão eficazes.

Entendo o Serginho. Ele se tratava na mesma psicóloga que eu. Era depressão - a doença das escolhas. O tratamento dele começara há três anos, no dia dois de fevereiro. Lembro-me a data, pois é a data em que fico sempre um ano mais experiente. Recordo-me dele dizendo: “renasço no dia em que você nasceu!”- Coisas da vida. Indiquei a Dra. Carla, pois ele estava tendo crises de pânico, ansiedade. Dei o diagnóstico já antes da consulta. Embora não seja médico, nesses conflitos já tenho doutorado.

Quem conhece os mistérios do coração? Será o leitor conhecedor deles? Não, ninguém os conhece. Nessa época, o pobre Serginho em seu imenso e amistoso coração guardava uma enorme dor. Essa dor começara dois meses antes, quando ele se separou da sua namorada: Eva. Eles se amavam e viviam intensamente esse amor, mas as brigas eram tão intensas tanto o quanto. Então, ele decidiu terminar. O que faz duas pessoas que se amam tanto brigarem tanto e se separarem? Essa pergunta era recorrente na vida do Serginho. Só que, nesse caso, ele não aguentava mais a situação, como, também, não conseguiu suportar sozinho a dor conseqüente da separação.

O Serginho e a Eva estavam juntos havia três anos, desde a formatura dele. Lembro-me que ele tinha uma certa dificuldade de aprendizado, mas conseguiu se formar sem perder um ano sequer. O Sérgio sempre foi guerreiro. Desde quando começamos a estudar juntos, na quinta série, nunca entendi muito bem a dificuldade que ele tinha. Era conhecedor de todos os jogos de videogame, era craque na bola, conhecia todos os programas de TV, mas tinha dificuldade nos estudos. Guardo viva em minha mente a lembrança de que, no primeiro ano do segundo grau, ele disse ter sofrido muito com a separação dos seus pais há seis anos. Aquilo me tocou fundo. Meus pais sempre viveram juntos, mesmo passando por bons ou maus momentos. Pra mim também seria uma dor muito grande a separação deles.

Mas, o fato é que o Sérgio está morto. A morte, atualmente, é uma conseqüência inevitável. Até lá, vivemos com base em nossas escolhas, e, assim como o Sérgio, estamos presos a uma sucessão de exercícios do livre arbítrio desde o primeiro dos dois momentos das nossas vidas em que não podemos exercê-lo – o nosso nascimento.


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