Por que a vida é tão complicada?
Por que tantas escolhas? Não seria mais fácil alguém escolher por nós? Penso
nessas perguntas sempre que tenho a difícil tarefa de escolher entre algo:
entre o terno e a bermuda, entre o desejo e a dívida, entre o presente e o
futuro, entre o sorriso e a carranca. E quantas vezes errei! Admito os erros,
como o leitor há de admitir que já errara várias vezes antes de começar a ler
estas palavras. Ainda digo mais, talvez ler esse texto seja seu primeiro acerto
de hoje ou o primeiro erro. A resposta ficará suspensa para uma posterior
reflexão.
Todavia, quando falo em escolhas,
não posso me esquecer de um grande amigo meu, o Sérgio Ferreira. Você conhece o
Serginho? Se não, talvez algum dos amigos do leitor o conheça. Era amigo dele
desde a quinta série. Sujeito simpático, não de muitas palavras, mas com um
coração bem maior que os seus 1,68m de altura. Ele era uma daquelas pessoas que
todos querem ter por perto. Porém, uso a palavra era, pois o Serginho faleceu
no último dia dois. Overdose.
Nos últimos meses, ele estava
muito mudado e, quando o encontrei, dois dias antes do triste fato, estava
emburrado, inquieto, tenso. Não sorria. Os seus olhos não brilhavam como antes.
E eu sabia o porquê dessas mudanças.
Nesse dia, lembrei-me que, quase
um ano antes, exatamente no dia dois, estávamos juntos: Eu, o Johny, o Vitinho e
ele. Como sempre, falávamos sobre o trabalho, faculdade, garotas e outras
coisas mais. Dentre essas outras coisas, o Serginho nos contou sobre uns amigos
novos que ele tinha feito no condomínio em que morava. Eram filhos de um
político muito conhecido na cidade. Na conversa, o Serginho havia dito que eles
o tinham oferecido drogas, mas que havia rejeitado. Entretanto, evidentemente, a
força de vontade dele não foi tão forte quanto a luta pra ser aceito pelos
novos amigos, e, pelo visto, nossos conselhos não foram tão eficazes.
Entendo o Serginho. Ele se
tratava na mesma psicóloga que eu. Era depressão - a doença das escolhas. O
tratamento dele começara há três anos, no dia dois de fevereiro. Lembro-me a
data, pois é a data em que fico sempre um ano mais experiente. Recordo-me dele
dizendo: “renasço no dia em que você nasceu!”- Coisas da vida. Indiquei a Dra.
Carla, pois ele estava tendo crises de pânico, ansiedade. Dei o diagnóstico já
antes da consulta. Embora não seja médico, nesses conflitos já tenho
doutorado.
Quem conhece os mistérios do
coração? Será o leitor conhecedor deles? Não, ninguém os conhece. Nessa época,
o pobre Serginho em seu imenso e amistoso coração guardava uma enorme dor. Essa dor começara dois meses
antes, quando ele se separou da sua namorada: Eva. Eles se amavam e viviam
intensamente esse amor, mas as brigas eram tão intensas tanto o quanto. Então,
ele decidiu terminar. O que faz duas pessoas que se amam tanto brigarem tanto e
se separarem? Essa pergunta era recorrente na vida do Serginho. Só que, nesse
caso, ele não aguentava mais a situação, como, também, não conseguiu suportar sozinho a dor conseqüente da separação.
O Serginho e a Eva estavam juntos
havia três anos, desde a formatura dele. Lembro-me que ele tinha uma certa
dificuldade de aprendizado, mas conseguiu se formar sem perder um ano sequer. O
Sérgio sempre foi guerreiro. Desde quando começamos a estudar juntos, na quinta
série, nunca entendi muito bem a dificuldade que ele tinha. Era conhecedor de
todos os jogos de videogame, era craque na bola, conhecia todos os programas de
TV, mas tinha dificuldade nos estudos. Guardo viva em minha mente a lembrança de que, no primeiro ano do
segundo grau, ele disse ter sofrido muito com a separação dos seus pais há seis
anos. Aquilo me tocou fundo. Meus pais sempre viveram juntos, mesmo passando
por bons ou maus momentos. Pra mim também seria uma dor muito grande a
separação deles.
Mas, o fato é que o Sérgio está
morto. A morte, atualmente, é uma conseqüência inevitável. Até lá, vivemos com
base em nossas escolhas, e, assim como o Sérgio, estamos presos a uma sucessão
de exercícios do livre arbítrio desde o primeiro dos dois momentos das nossas
vidas em que não podemos exercê-lo – o nosso nascimento.
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