terça-feira, 13 de junho de 2017

Crônica de segunda-feira



Segunda-feira. Detesto segundas-feiras. Na realidade, eu detestaria qualquer dia após o domingo, mesmo se não fosse segunda-feira. Caso o sábado fosse após o domingo, eu o detestaria também, mas não é.
A única coisa que eu detesto mais que as segundas-feiras é chegar atrasado. Por isso, saí correndo para chegar ao cartório no horário. Cheguei faltando apenas 5 minutos para o início do expediente: ofegante e suado; no horário, porém. Ainda me recompondo, ouvi um colega dizer: “queimou o assado?”. Fiquei quieto. Certas perguntas não merecem resposta – Essa é uma delas. Apenas dei um sorriso amarelo, para não ser indelicado, e sentei em minha cadeira. Liguei o computador, levantei-me e fui beber água. A cada gole relembrei o trajeto sôfrego que me fez chegar até ali, além de pensar em outra maneira de reagir à pergunta sarcástica da minha chegada. No último gole, concluí que devo acordar mais cedo e que ficar calado, às vezes, é, realmente, a melhor opção. Fui ao escaninho para começar o trabalho.
O primeiro processo que peguei referia-se a uma ação de perda do poder familiar. Comove-me a irresponsabilidade de certos pais que abandonam, maltratam, corrompem e abusam de seus filhos, negando-lhes os direitos mais fundamentais: a dignidade e a família. Contristado, continuei cumprindo processo após processo. Passei a elaborar ofícios e mandados, mandados e ofícios, pensamentos e ofícios, pensamentos e mandados, pensamentos e pensamentos. Levantei-me para tomar um café.
No trajeto à cafeteira, comecei a conversar com meus botões. Pensei no último processo que estava cumprindo, sobre quais ofícios encaminhar. Em meio a essa reflexão peripatética, vejo chegar uma senhora no balcão. Fui atendê-la. Humilde, pela sua aparência, ela pediu um alvará de medicamentos. Solicitei seu nome. “Ana Maria de Jesus”, ela respondeu. Consultei no sistema, encontrei o processo. Entreguei o alvará à Dona Ana e recolhi sua assinatura. Após assinar seu nome com dificuldade, ela deu um sorriso puro e esperançoso. Agradeceu e foi embora.

Com aquele sorriso, a Dona Ana ensinou-me que o meu trabalho é mais que ofícios e mandados. É bem mais que uma pilha para baixar. Meu trabalho consiste em dar esperança. Esperança para a criança abandonada, esperança de uma vida melhor para alguém que não tem condições de comprar seu remédio. Após aquela lição, voltei para minha mesa (O café ficou para depois) e comecei a cumprir esperanças. Daquele momento em diante, esqueci que era segunda-feira.

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