Segunda-feira. Detesto
segundas-feiras. Na realidade, eu detestaria qualquer dia após o domingo, mesmo
se não fosse segunda-feira. Caso o sábado fosse após o domingo, eu o detestaria
também, mas não é.
A única coisa que eu detesto mais
que as segundas-feiras é chegar atrasado. Por isso, saí correndo para chegar ao
cartório no horário. Cheguei faltando apenas 5 minutos para o início do
expediente: ofegante e suado; no horário, porém. Ainda me recompondo, ouvi um
colega dizer: “queimou o assado?”. Fiquei quieto. Certas perguntas não merecem
resposta – Essa é uma delas. Apenas dei um sorriso amarelo, para não ser
indelicado, e sentei em minha cadeira. Liguei o computador, levantei-me e fui
beber água. A cada gole relembrei o trajeto sôfrego que me fez chegar até ali,
além de pensar em outra maneira de reagir à pergunta sarcástica da minha
chegada. No último gole, concluí que devo acordar mais cedo e que ficar calado,
às vezes, é, realmente, a melhor opção. Fui ao escaninho para começar o
trabalho.
O primeiro processo que peguei
referia-se a uma ação de perda do poder familiar. Comove-me a
irresponsabilidade de certos pais que abandonam, maltratam, corrompem e abusam
de seus filhos, negando-lhes os direitos mais fundamentais: a dignidade e a
família. Contristado, continuei cumprindo processo após processo. Passei a
elaborar ofícios e mandados, mandados e ofícios, pensamentos e ofícios,
pensamentos e mandados, pensamentos e pensamentos. Levantei-me para tomar um
café.
No trajeto à cafeteira, comecei a
conversar com meus botões. Pensei no último processo que estava cumprindo,
sobre quais ofícios encaminhar. Em meio a essa reflexão peripatética, vejo
chegar uma senhora no balcão. Fui atendê-la. Humilde, pela sua aparência, ela
pediu um alvará de medicamentos. Solicitei seu nome. “Ana Maria de Jesus”, ela
respondeu. Consultei no sistema, encontrei o processo. Entreguei o alvará à
Dona Ana e recolhi sua assinatura. Após assinar seu nome com dificuldade, ela
deu um sorriso puro e esperançoso. Agradeceu e foi embora.
Com aquele sorriso, a Dona Ana
ensinou-me que o meu trabalho é mais que ofícios e mandados. É bem mais que uma
pilha para baixar. Meu trabalho consiste em dar esperança. Esperança para a
criança abandonada, esperança de uma vida melhor para alguém que não tem
condições de comprar seu remédio. Após aquela lição, voltei para minha mesa (O
café ficou para depois) e comecei a cumprir esperanças. Daquele momento em
diante, esqueci que era segunda-feira.
Nenhum comentário:
Postar um comentário